Dicas de Viagem Atualizado em 06 de julho de 2026 por Reginaldo Esteves Bonifácio

Ana Maria Gonçalves afirma que Um Defeito de Cor não é uma contra-história, mas uma narrativa que preenche lacunas documentais. O romance de 2006 revisita o Brasil escravocrata a partir de arquivos e da memória oral, sem se opor à historiografia oficial.

Um Defeito de Cor não é uma contra-história, diz Ana Maria Gonçalves

Em entrevistas e textos críticos, a escritora Ana Maria Gonçalves tem sido enfática: seu romance Um Defeito de Cor (2006) não cabe no rótulo de contra-história. A obra de mais de 900 páginas, que narra a vida de Kehinde, uma africana escravizada no Brasil do século XIX, foi construída a partir de pesquisa em arquivos históricos, cartas, inventários e registros de navios negreiros. Para a autora, trata-se de uma narrativa que preenche lacunas documentais, não de uma versão alternativa ou oposta à história oficial.

O que Ana Maria Gonçalves diz sobre contra-história

Ana Maria Gonçalves argumenta que Um Defeito de Cor não é uma contra-história porque a obra não se propõe a negar ou rivalizar com a historiografia oficial. Em vez disso, a autora buscou reconstituir a experiência de africanos e afrodescendentes a partir de fontes primárias, como os inventários de bens de senhores de escravos e os registros de batismo de crianças negras. A pesquisa incluiu arquivos na Bahia, em Minas Gerais e no Rio de Janeiro.

A autora também recorre à memória oral de comunidades quilombolas e ao candomblé para reconstruir o que os documentos oficiais silenciam. Isso não configura uma contraposição, mas uma expansão do que se conhece sobre a diáspora africana no Brasil.

A relação com a historiografia oficial

Diferente de obras que se apresentam como revisionistas, Um Defeito de Cor dialoga com a historiografia acadêmica. A autora afirma que consultou trabalhos de historiadores como João José Reis e Robert Slenes, que estudam a escravidão no Brasil a partir de fontes documentais. O romance não ignora os dados oficiais, ele os incorpora e os tensiona, mas sem negá-los.

A pesquisa histórica na literatura brasileira contemporânea

Um exemplo está na descrição da Revolta dos Malês (1835), em Salvador. Ana Maria Gonçalves utiliza os autos do processo judicial do levante, disponíveis no Arquivo Público do Estado da Bahia, para reconstituir os eventos. A narrativa não inventa os fatos; ela os insere na experiência subjetiva de Kehinde.

Por que o termo contra-história é problemático

Para a autora, o termo contra-história sugere uma narrativa que se opõe à história estabelecida, como se houvesse duas versões antagônicas. Ana Maria Gonçalves prefere falar em "história silenciada" ou "história não contada". Ela argumenta que a escravidão e a experiência africana no Brasil não foram objeto de uma história paralela, mas de omissão nos registros oficiais.

A obra, portanto, não cria uma versão alternativa: ela recupera o que os documentos oficiais deixaram de registrar. A autora cita o caso dos inventários de senhores de escravos, que listavam pessoas como bens, mas não registravam seus nomes próprios ou origens étnicas. O romance preenche esses vazios com base em pesquisa etnográfica e histórica.

A recepção crítica e o debate acadêmico

Desde o lançamento, Um Defeito de Cor gerou debates na crítica literária e na academia. Alguns estudiosos o classificaram como contra-história, mas a autora tem recusado o rótulo publicamente. Em 2023, durante a Flip, Ana Maria Gonçalves reafirmou que a obra é um romance histórico que utiliza métodos de pesquisa historiográfica.

A crítica literária destaca que a obra não se limita a narrar a dor da escravidão, mas também mostra a agência dos personagens negros, suas redes de solidariedade e suas estratégias de resistência. Isso não configura uma contraposição à história oficial, mas um aprofundamento.

Romances históricos brasileiros que dialogam com arquivos

A estrutura narrativa e o uso de arquivos

Um Defeito de Cor é narrado em primeira pessoa por Kehinde, que escreve uma carta ao filho perdido. Essa estrutura epistolar permite que a autora mescle a memória individual com a pesquisa histórica. O romance utiliza dados demográficos do período, como o número de africanos desembarcados no porto de Salvador entre 1800 e 1850.

A obra também recorre a registros de navios negreiros, que indicavam a origem étnica dos cativos. Ana Maria Gonçalves usou esses dados para construir a trajetória de Kehinde, que sai do Daomé (atual Benim) e chega ao Brasil. A pesquisa incluiu também os arquivos da Santa Casa de Misericórdia da Bahia, que registravam o batismo de crianças negras.

O que dizem os especialistas

A historiadora Maria Helena Machado, da USP, afirma que Um Defeito de Cor é um exemplo de "história literária", em que o romance dialoga com a pesquisa acadêmica sem se submeter a ela. Para Machado, a obra não é contra-história porque não nega os dados oficiais; ela os utiliza como ponto de partida para a ficção.

Já o crítico literário Eduardo de Assis Duarte, da UFMG, destaca que o romance de Ana Maria Gonçalves "não propõe uma versão alternativa, mas uma versão complementar" da história. Duarte ressalta que a obra se insere na tradição de romances históricos que buscam dar voz a personagens silenciados, como O Cortiço ou Memórias de um Sargento de Milícias, mas com uma base documental mais rigorosa.

Perguntas Frequentes

O que é uma contra-história?

Contra-história é um termo usado para descrever narrativas que se opõem ou negam a historiografia oficial. Ana Maria Gonçalves rejeita o termo para Um Defeito de Cor porque a obra não se propõe a rivalizar com a história acadêmica.

Por que Ana Maria Gonçalves não considera Um Defeito de Cor uma contra-história?

A autora argumenta que o romance preenche lacunas documentais, mas não nega os fatos históricos estabelecidos. A obra utiliza arquivos e pesquisa acadêmica como base.

Qual a base de pesquisa do romance?

A pesquisa incluiu inventários de bens, registros de navios negreiros, autos de processos judiciais, registros de batismo e memória oral de comunidades quilombolas.

O romance é baseado em fatos reais?

A personagem Kehinde é ficcional, mas sua trajetória é construída a partir de dados históricos reais, como a origem étnica dos africanos trazidos ao Brasil e os eventos da Revolta dos Malês.

Como a crítica recebeu a obra?

A crítica literária e acadêmica reconhece o rigor da pesquisa histórica de Ana Maria Gonçalves. O debate sobre o termo contra-história continua, mas a autora tem sido consistente em sua posição.

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